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Droga Total POR 
Cobrafuma
Droga Total

A "Droga Total" de Cobrafuma é um conjunto de belas analogias que não se perdem na verve com que o quarteto de metal total vocifera as suas palavras de ordem. No novo álbum da banda do Porto, o metal é apenas o seu meio e não o fim; este fim é o êxtase que vem da velocidade e do furor das guitarras cada vez mais rápidas, cada vez mais intensas. A droga é o riff, é total por funcionar como um ouroboros: a cobra fuma-se a si mesma numa corrida pirotécnica em sete atos.


O novo conjunto de sete músicas, na forja há dois anos, funde uma urgência catastrofista com o humor negro de quem encara a explosão nuclear de frente, usando a temperatura ascendente do apocalipse para acender o cigarro. "Droga Total" é mais duro e mais bravo, e também mais sarcástico e mordaz, mais incisivo e perspicaz — se o disco homónimo começou ao balcão da tasca a intoxicar-se com a revolta do contemporâneo, este novo capítulo começa na recolha de garrafas para a reciclagem furibunda do cocktail molotov. A violência com que identificam inimigos é catalisada pelo andamento desgovernado de cada música, mas a sua maior arma de destruição é o ridículo em que os cobrem, de escárnio virolento e venenoso.


Os “Meninos das Tochas” mais não são do que meninos, as tochas são maiores do que eles e a cobra acende o fumo com elas. “Quem é Este Man” é resposta à reação, com a pergunta que destrói os egos dos heróis das teclas. “Trabalho” é o hino sindicalista da siderurgia, a espalhar a mensagem contra a jornada, e “Droga Total” é tanto sobre uma espécie de Soilent Green como sobre as migalhas que sobram a quem não é trilionário, bilionário, ou vive no privilégio dos 1%. O choro de distorção de “Tiro No Escuro” é o clamor da rua e da possibilidade de mudança que esta guarda, uma sequência perfeita para a tensão pré-revolução de “Hoje é o dia” e a preparação certa para o alucinante sprint de guitarras rasgadas e inebriadas pela substância mais dura, o riff, que é a derradeira “Humildade”. Cobrafuma desmonta todos os inimigos com a melhor e mais nortenha raiva lírica, numa estética inaugurada por José Mário Branco em FMI: furioso, belicoso, incendiário e gozão, sarcástico, com o desespero camuflado e inflamado no humor. É idiomático, é do Norte, é a língua da tasca vociferada; o cardápio serve Droga Total em pratos de metal e talheres de aço.


A fúria de Cobrafuma em "Droga Total" não é simplesmente metálica, porque respira a decadência do rock, na ginga e no groove com que recorta cada riff, cada linha de baixo, cada galope da percussão. O d-beat na bateria alimenta bem o thrash na guitarra e o groove stoner do baixo, com todos os elementos a trocar rapidamente, passando o sludge e o punk pelas cordas, com a percussão a carregar o instinto mais belicoso do death, que pisca dengosamente o olho ao groove do roll. A totalidade é geográfica, temporal e visceral. Ao contrário da prototípica banda dos géneros extremos, a Cobrafuma serpenteia por todo o extremo das guitarras livremente, sem se dedicar religiosamente a nenhum subgénero em particular. O seu credo não é a distorção, mas sim a adrenalina. O escárnio em que mergulham cada música, com um cuidado lírico mais próximo das tradições do rock, é o mesmo que usa as texturas abrasivas da música pesada em nome da sensação, do êxtase, da raiva e da toxina. Este álbum não é sobre o que se ouve, mas sobre o que se sente.

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