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A Odisseia de Carlos Bizarro POR Sereias
A Odisseia de Carlos Bizarro

Em "A Odisseia de Carlos Bizarro", o grupo portuense Sereias, escava a relação com a narrativa sonora, com a alegoria e com o sentimento de crítica social. Construíram um disco sob a forma de um percurso de vida. Trata-se de uma travessia instável, que se situa entre o colapso e a possibilidade. É um disco que habita o desencanto de uma imaginação contundente, lúcida e feroz. À semelhança das sereias, o grupo assume-se enquanto figura ambígua que reside entre a fronteira do humano e do não-humano; do real e da fábula; da sereia e do monstro. Este álbum, canta a partir de um lugar que chega a ser perigoso: o da lucidez da existência de/num mundo que prefere o ruído. Na história mítica, as sereias não eram apenas símbolos de sedução, mas eram também tidas como guardiãs de uma espécie de conhecimento que era interdito às massas. Quem escutava o seu canto, via-se confrontado consigo mesmo, isto é, com os seus desejos e com a fragilidade da sua existência. É neste gesto e narrativa que inscrevemos este disco. Sereias gritam para um presente que está saturado, chamando-o à atenção, ao passo que o desviam do percurso automático, forçando-o a encarar a deriva social, política e emocional que se tornou uma banalidade quotidiana. Carlos Bizarro, enquanto figura errante e deambulante, surge quase como um anti-herói que caminha por paisagens reconhecíveis da precariedade, do desencanto e do antilogismo. Nessa senda, a sua odisseia vivencial não é épica num sentido arcaico, mas antes profundamente contemporânea. Esta pessoa vive num mundo feito de promessas de um futuro que é constantemente adiado – e nunca como hoje este é o quotidiano de uma grande parte da sociedade. Assim, a distopia não é um cenário longínquo, mas antes uma condição instalada: um modo de vida. O colapso do mundo já aconteceu, nós é que não o queremos ver. E pior: queremos normalizar esse colapso. Por isso, este novo trabalho dialoga com o percurso anterior do grupo; até porque, em "O País a Arder" (2018), o fogo e as chamas eram metáforas de um país à beira da combustão social e política. Em "Sereias" (2022), o grupo afirmava uma identidade estética e discursiva, consolidando uma linguagem própria entre o (sub)campo português do (pós)rock experimental, alternativo e interventivo. Agora, em "A Odisseia de Carlos Bizarro", a obra surge diante de mim como um terceiro inevitável movimento: mais denso onde a urgência dá lugar a uma observação crítica mais amarga, mas mais livre. Tal como as sereias que habitavam margens e zonas de perigo dos caudais, este disco posiciona-se num território liminar. Este é um disco sobre o escutar e sobre igualmente o risco de o fazer. Num tempo em que tudo compete pela atenção, Sereias insistem na urgência da criação artístico-musical enquanto gesto político-poético que nos lembra que, mesmo em tempos distópicos, narrar este mundo de caos, de desigualdade, de crueldade é um ato profundamente político. 


Paula Guerra